domingo, 18 de dezembro de 2011

Fim e recomeços



Esta semana que passou, marcou a vida de algumas pessoas, dessas vidas tive a oportunidade de fazer parte, estando ao lado no período em receberam ajuda para se recuperar ou ressignificar suas dores. Vê-las hoje, chegando ao tão esperado momento da alta... é muuuito gratificante e me faz feliz!! 

Esta semana vi algumas pessoas pela primeira vez, pessoas que vieram ao ambulatório e consultório, buscando alívío para o que parece não ter solução, desejando que seus conflitos sejam superados mas ainda com incerteza no olhar, se questionando se pode mesmo dar certo, se é possível deixar a dor para trás e seguir a vida mesmo depois de tantas perdas.

Fim de ano é época de pensar a respeito da vida e de como foi o ano que está quase terminando! Algumas pessoas demonstram alegria ao término de um ano e otimismo quanto ao ano que está por vir; outras pessoas desejam que seu ano acabe logo e que o próximo seja mais leve ou menos sofrido; tem gente que está comemorando a superação de um ano ou de muitos anos de sofrimento, que agora olha para a vida com olhos de quem acredita que pode viver e ser feliz, como pela primeira vez em muitos e muitos anos.

Este mês quem trabalha e realiza com amor tudo que faz, ganha muitos presentinhos, até a semana passada vieram dos mais diversos. Cada um é tão especial, do mais simples ao mais sofisticado, cada presente que nem sempre é material, pode ser também um abraço apertado e muitas palavras de agradecimento. Todos são muito especiais!

Particularmente sobre os pacientes que estão agora neste fim de ano, conquistando a alta merecida, para aqueles que mesmo nesta época do ano que para a maioria, é uma época de reflexões intensas e que nem sempre desperta alegrias... para esses meus pacientes, este fim de ano está sendo um recomeço!!

Uma das pessoas de quem me despedi, deixando saudades mas também muita alegria, porque agora o sorriso sai naturalmente de seu rosto e a melhora é visível. Agora viver tem sentidos diversos e mais uma vez, depois de tantos anos em sofrimento, vive a possibilidade de um existir mais pleno e feliz!!

Esta pessoa me deixou um cartão de natal, que vou guardar sempre com muito carinho, sobre o que ela me escreveu, vou partilhar um trechinho com vocês:

"Drª Stella, no início foi muito difícil, enfrentar os desafios da terapia. Porque enfrentar a realidade e a verdade é sempre difícil. Expor e falar de tristeza, dor, sofrimento, medo, ansiedade, culpa e vergonha, raiva, felicidade e amor. São muitas emoções, intensas em nossas vidas. Mas com a sua ajuda eu aprendi a interpretá-las melhor. Eu me encontrava perdida e você me fez encontrar o caminho certo para as mudanças na vida. Ainda é preciso perseverar e compreender melhor o papel que todas essas emoções desempenham em nossas vidas, apesar de eu me sentir bem melhor em relação a essas emoções. É inevitável excluir o sofrimento, evitá-lo não nos leva a uma vida feliz, mas a forma de enfrentá-lo conduz à uma vida mais significativa.(...) De sua paciente e amiga."

Obrigada a esta paciente e a todos os outros, que compartilham comigo tanta dor para só depois de muito esforço, compartilhar também da sua melhora e a conquista de ter resolvido seus conflitos, aprendendo a cuidar melhor de si mesmo, para que só assim se mantenha a saúde e o desejo de viver.

Comemoro com vocês a melhora já conquistada!!! Desejo a todos que o ano de 2012, seja o ano para continuar a alegria conquistada em 2011; ou para cuidar das dores que ainda estão presentes; desejo para todos que aprendam a cuidar melhor de si mesmo e que encontrem novos recomeços...

Abraços fortes...

Obrigada também aos visitantes e seguidores do Blog pela presença em 2011, que no próximo 2012 o Construindo assuma mais e mais sentidos... 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Reflexões para o fim de ano

Esperar que a felicidade caia do céu é um dos hábitos ou comportamentos mais frequentes em muitos seres humanos. Diante do sofrimento e das dificuldades, clamamos por ajuda... alguns pedem a Deus, outros chamam por alguém, outros permanecem em silêncio. Receber cuidado e ajuda em situações desesperadoras, sem dúvida pode aliviar a dor. Porém constantemente, muito se pede ou se espera, e pouco se valoriza do que já foi conquistado ou do que já se tem.

Neste sentido, recebo cada vez mais em atendimento, sujeitos que em busca do inatingível, perdem e desvalorizam o que já possuem, o que muitas vezes receberam de seus afetos, conquistas ou da vida. Oportunidades, amores, amizades ... Quanto se perde nesta busca pelo impossível, pelo ilusório, pelo que esperamos alguém nos dar! Toda busca envolve investimento, quando não se investe, não se busca, apenas se espera.

Na vida somos aprendizes, nossas atitudes ou escolhas, podem ter consequências boas ou ruins, em nossas vidas e na vida de outras pessoas também. Posso dizer que inúmeras vezes, já ouvi pessoas dizendo que adorariam voltar no tempo, para evitar uma experiência dolorosa, após uma atitude impensada ou pelos erros do passado.

Nós seres humanos, apresentamos grande dificuldade quando diante dos erros ou sofrimento, não conseguimos buscar na experiência a oportunidade do aprendizado, para a mudança de atitudes, pensamentos e sentimentos. Vive-se a espera de algo que indique o caminho para os acertos, para a felicidade plena. "É errando que se aprende." Esta frase é tão usual e infelizmente, ainda tão pouco incorporada na vida dos indivíduos.

Crenças negativas podem tornar um gesto simples em algo impossível de se alcançar! Crenças positivas não desconsideram às dificuldades, mas fortalecem o ser com a esperança de que precisa, para construir um novo começo, uma nova história. Dias melhores são possíveis quando a vida é construída através de conquistas e aprendizado.

Certa vez, ouvi de um paciente: "com o tempo e com a experiência que adquirimos na vida, aprendemos que perder é difícil demais. Vejo muita gente dizendo que não consegue nada, que nunca ganhou nada de graça. E por que isso é tão ruim? Eu já senti assim também. Eu vivi uma vida esperando, apenas esperando... ganhei muitas coisas, mas perdi muito mais. Não valorizei e nunca conquistei nada.”

Exercite mais o hábito de pensar sobre suas atitudes e pensamentos ou desejos. Busque o que lhe deixa feliz e peça ajuda quando precisar! Não seja apenas um expectador de sua viva e participe sendo responsável pelo que lhe acontece! E acima de tudo, pare e pense no que já conquistou e no que já lhe foi dado, antes que a vida passe e junto com tudo que é importante, seus afetos se percam.

Final de ano, início ou recomeço para realizações ou quem sabe uma vida nova! Nem tudo é fácil na vida, mas com certeza ter fé e lutar é importante, para que não apenas sonhemos, para que nossos desejos se tornem realidade. Seja qual for sua idade, sempre existirá tempo para ser feliz... para se realizar!

Abraços fortes...



“É difícil agradecer pelo dia de hoje, assim como é fácil viver mais um dia. É difícil enxergar o que a vida traz de bom, assim como é fácil fechar os olhos e atravessar a rua. É difícil se convencer de que se é feliz, assim como é fácil achar que sempre falta algo.”

(Cecília Meireles)

sábado, 26 de novembro de 2011



"Quando uma situação de impasse, para a qual não há saída, não pode ser superada exteriormente, não resta outro recurso senão a fuga para cima, o trabalhar em si próprio, o crescer interiormente com a própria situação de desespero da qual alguém se tornou vítima sem poder se defender. Nesses casos costumo lembrar que as árvores que estão muito juntas na floresta não têm outra saída a não ser crescer para o alto!"                      
                                                                (Viktor E. Frankl)


Um forte abraço ... bom fim de semana!!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Começando bem o dia...




"Pensamos demasiadamente

Sentimos muito pouco

Necessitamos mais de humildade

Que de máquinas.

Mais de bondade e ternura

Que de inteligência.

Sem isso,

A vida se tornará violenta e

Tudo se perderá."

(Charles Chaplin)*


"A vida é maravilhosa se não se tem medo dela."


                                                                  (Charles Chaplin)*



"Nada é permanente nesse mundo cruel. Nem mesmo os nossos problemas."
 
  (Charles Chaplin)*


"Cada pessoa que passa em nossa vida, passa sozinha, é porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra! Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha e não nos deixa só porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso."

   (Charles Chaplin)*


*Charles Spencer Chaplin (1889 - 1977), foi um ator e diretor inglês, também conhecido por Carlitos no Brasil.




Desejo um ótimo dia a todos!! Abraços fortes... Stella


domingo, 20 de novembro de 2011

UTI Pediátrica: Lugar de criança ser criança



Semana passada, cheguei pela manhã para atender na UTI Pediátrica do Hospital onde trabalho e como de costume, verifiquei quem eram os pacientes que estavam internados e o motivo da internação. Esta semana recebemos mais duas crianças na UTI pediátrica, uma mocinha que já conheço de outras internações e um menininho de 6 anos que estava acompanhado de sua avó quando fui conhecê-lo.

Me aproximei e no momento em que estava ao seu lado, iniciando uma conversa para que nos conhecêssemos, o médico responsável pelo plantão veio examiná-lo. Fiquei ao lado, vendo a reação do menininho, que chorava com dor e dificuldade para abrir sua boa, estava com a bochecha direita bem inchada. Depois de examinado, continuei ao seu lado, ele não queria conversa, estava com dor e chamava pela mãe. Sua avó dizia que a mãe tinha tido um bebê e que ainda não podia sair de casa para ficar com ele no hospital. Conversei com N. dizendo que voltaria para brincarmos, quando ele já não estivesse com tanta dor. Entendam, ele não repeliu meu contato mas eu não podia insistir que ele interagisse comigo naquele momento. Fiquei fazendo carinho no seu bracinho, para que ele se acalmasse e parasse de chorar, o rosto estava muito inchado e doía, precisava se acalmar para que a medicação fizesse efeito. Ele permitiu o carinho e fechou os olhos, parou de chorar. Fiquei com ele por um tempo, depois fui embora e prometi voltar.

À tarde, voltei à UTI para entregar algo que havia prometido a uma mãezinha, cheguei e logo a fisioterapeuta me olhou e disse que eu não morria mais. Vixe, pensei: que será que aconteceu? Ela continuou dizendo que estava tentando me ligar (número de celular errado, descobrimos depois) e que precisava que eu conversasse com o N., disse que ele só chorava, chamando pela mãe e que o ouviu dizendo: "Minha mãe me abandonou, ela prefere minha irmãzinha."

 A físio disse que já tinha conversado com uma médica sobre convocar a mãe para vir. Pedi que ligassem e explicassem que ela precisava vir, não precisava ficar mas que viesse no horário de visita. Fui lá, encontrei ele chorando baixinho, as lágrimas corriam, ainda com rosto inchado dizia baixinho que queria a mãe. O motivo da mãe não vir, era a suspeita de que o filho estivesse com caxumba, ela estava preocupada com o contato, por causa do bebê recém-nascido.

Fiz carinho em N. que não tirou o bracinho mas aumentou o choro, chorava e pedia pela mãe. Eu tentei acalmá-lo, dizendo que sua mãe também estava com saudades e que viria para vê-lo. Ele pedia para ir embora, eu dizia que precisava ficar bom e depois iria pra casa, pedi que tivesse calma e perguntei se chorar estava fazendo doer mais seu rostinho, disse que eu ficaria com ele até que se acalmasse.

Uma das mãezinhas da UTI veio e falou para nós dois, que já tinha ligado pra mãe dele e que ela viria. Ele arregalou o olho e me olhou, parou de chorar e ficou aproveitando o carinho mas ainda fazia bico de quase choro. Eu então lhe disse que iria falar com sua avó, que nos olhava da porta e que voltaria. Expliquei a ela que TODA criança vive um processo de adaptação interna, que precisa organizar sentimentos quando ganha um (a) irmãozinho (a) e que ele não tinha nem conseguido se adaptar e já estava internado, longe da mãe e se sentindo abandonado. Disse que iria até ele de novo, para explicar que a mãe viria e o motivo dela não poder ficar com ele no hospital ou abraçá-lo, para que ele não se sentisse rejeitado.

Voltei a falar com N. e disse, olhando nos seus olhinhos, falei para ele que precisava prestar atenção no que eu ia dizer, ele voltou a chorar porque pensou que eu ia falar, que sua mãe não viria. Pedi calma e falei que ele precisava prestar atenção no que a tia ia falar, expliquei que o inchaço do rosto podia ser uma doença chamada caxumba. Disse que o nome era feio mas a doença estava sendo cuidada com um remedinho e que ele ia ficar bom. Falei que a mamãe viria e que ela não ia poder abraçá-lo porque ela também podia ficar doente e a irmãzinha dele que estava em casa também, por isso ele ia ver a mamãe e não ia abraçá-la até o inchaço e a dor passar. Ele ameaçou chorar mas prestou atenção e entendeu, só que depois chorou e com voz de choro falou: EU VOU FICAR AQUI POR ANOS??   Eu respondi: NÃÃÃOOO!!! Você vai ficar pouco tempo, a tia que vai ficar aqui por anos, trabalhando no hospital! Pode confiar em mim, é só você esperar que o remedinho faça efeito, talvez precise de uns dias mas anos não! Ele fechou os olhinhos e eu fiz carinho de novo, falei que ia pedir a médica que lhe explicasse e tirasse suas dúvidas.

Falei com a fisioterapeuta que tinha me contado o que acontecia naquele momento com N. e com a fonoaudióloga que também estava lá, pedi que falassem com a médica e que no momento da chegada da mãe, que alguém da equipe estivesse lá com eles. Que era importante não deixá-lo pensar que sua doença era grave, (ele não precisava disso) que ele pensasse em ficar bom e que pudesse ver a mãe chegando, também com MUUUITA saudade!!
Ele perguntou o DIA dele ir embora. É claro que ele queria ir embora, além de não ser bom ou fácil ficar internado, ele estava se sentindo sozinho e abandonado, como se a irmãzinha agora fosse a preferida. E a dor no rosto? Ele nem falava da dor, a preocupação era outra! Contei para vocês o que ocorreu porque UTI pediátrica não é o lugar onde só cuidamos da doença, olhamos cada um que está lá dentro (paciente, pais ou responsáveis) como pessoas e escutamos suas dores ou conflitos. Ele tem somente 6 anos mas já quer entender se está perdendo a mãe, já que ganhou uma irmã. Perdeu temporariamente a saúde e já pensa na perda concreta do ser que tanto ama. Só pra constar, N. não está internado só por causa da caxumba mas ele vai ficar bom e vai embora se Deus quiser, logo logo. 

Mamães e Papais preparem seus filhos para receber seus irmãozinhos! Conversar funciona, ter atenção as reações emocionais e comportamentos deste processo (desde a gestação, após nascimento e início da relação entre irmãos). Existem muuuitos livros que tratam do tema. E outras medidas que ajudam muito, que devem ser introduzidas na criação e formação de seus filhos, com ou sem irmãos. Como por exemplo, saber dividir... saber compartilhar... saber trocar...

Estou à disposição para tirar dúvidas.

Um beijo e um carinho no bracinho de N.
Abraços fortes em todos que lerem este pequeno relato sobre o dia a dia de uma UTI Pediátrica.

OBRIGADA AOS VISITANTES DO BLOG, JÁ CONSEGUIMOS ULTRAPASSAR 18.500 ACESSOS!!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Olá seguidores e visitantes do Blog, estou afastada TEMPORARIAMENTE do Construindo porque esta semana além dos compromissos de trabalho, estou participando do II Congresso Brasileiro de Cuidados Paliativos da Casa do Cuidar.

Volto logo que puder... agradeço a presença de todos, pois dia a dia o Construindo cresce com a participação de vocês.. já ultrapassamos o número de 17.800 visitas!!

Obrigada mais uma vez!

Abraços fortes...


O TRABALHO GANHOU  PELA SEGUNDA VEZ O PRÊMIO DE MELHOR TRABALHO EM PÔSTER DO CONGRESSO. FOI MUITO IMPORTANTE PARA MIM RECEBER ESTE PRÊMIO. A CASA DO CUIDAR DESENVOLVE HÁ MUITOS ANOS UM TRABALHO DE ASSISTÊNCIA E ENSINO SOBRE CUIDADOS PALIATIVOS NO BRASIL. SOU GRATA A EQUIPE MULTIPROFISSIONAL COM O QUAL TRABALHO. GRATA AOS PACIENTES E SEUS FAMILIARES QUE ME PERMITIRAM SABER DE SUAS HISTÓRIAS. GRATA AOS ORGANIZADORES E PARTICIPANTES DO CONGRESSO. GRATA AS PESSOAS QUERIDAS QUE SEMPRE ME INCENTIVAM A CONTINUAR MEU TRABALHO. ESTA PESQUISA RETRATA O DIA A DIA DE UMA EQUIPE DE CUIDADOS PALIATIVOS, NOSSAS CONQUISTAS DIÁRIAS NA BUSCA PARA UMA MELHOR ASSISTÊNCIA DESSES SUJEITOS PACIENTES E SUJEITOS CUIDADORES.

UM FORTE ABRAÇO!!!

sábado, 22 de outubro de 2011

Quando o coração fala mais alto


Depois de um mês e um dia... olha eu aqui, de volta ao Construindo... que saudades!! A correria e o cansaço me vencem todo fim de dia, não quer dizer que outros projetos ou atividades sejam mais importantes, é que realmente não dá pra abraçar o mundo... apesar de que, o que nunca falta é vontade.. de mais e mais trabalhar e trabalhar, fazendo aquilo que tanto amo. Tenho muito amor pela profissão que escolhi... escolhi muito cedo, ainda menina, que seria psicóloga. Sabe quando a gente vê aquela criança dizendo... quando eu crescer eu quero ser... comigo foi assim. Eu sempre desejei cuidar de pessoas e graças ao incentivo de minha família, graças a Deus... posso dizer que me sinto profissionalmente feliz mas ainda não totalmente realizada. Digo isso porque se Deus me permitir, ainda vou fazer meu mestrado.. quero dar aula para pessoas que como eu, escolheram cuidar de pessoas e sabem da importância e seriedade dessa escolha. 

Cada pessoa que atendo, seja no hospital ou no consultório, traz dentro de si muito sofrimento... é gratificante quando pouco a pouco, vejo que aquela pessoa passa a confiar em mim, permitindo que eu lhe ajude a aliviar suas dores, a curar ou cuidar de seu sofrimento, para que volte a ter esperança e força para enfrentar suas dificuldades. Por isso, agradeço a todos os meus pacientes e também aos seus familiares que me permitiram e que se permitem dividir comigo suas histórias, seus medos, suas dores, seus sonhos, suas fraquezas e incertezas, suas limitações e dificuldades, seus erros e a culpa, suas vidas e suas preocupações, suas frustrações... mas também suas vitórias, suas alegrias, os aprendizados e novos caminhos traçados.

Esses dias recebi uma paciente idosa, que começou o atendimento dizendo que precisava encontrar uma resposta para seu conflito... dizia que não tinha certeza se agiu correto na criação dos filhos. Dizia: "Stella, eu não sei.. acho que sou culpada, meus filhos eles são muito coração sabe, são sensíveis e eles não conseguem às vezes uma melhor colocação no trabalho deles porque eles agem muito com o coração. Eles trabalham para empresas que visam ganhar dinheiro e meu filho, o cargo dele exige dele muito trabalho, mas o reconhecimento não é lá essas coisas, vejo ele que também já tem uma certa idade, tendo que trabalhar tanto e estudar ainda, ele sempre estudou e ainda hoje, faz um curso na USP, é uma pessoa tão dedicada e a empresa não valoriza, ele não passa dificuldades, mas para tanto esforço, merecia uma estabilidade financeira, sabe? Já teve oportunidades de ganhar dinheiro de forma desonesta, mas ele não é assim, não que eu lamente.. mas às vezes me pergunto, ele que batalha tanto, se fosse menos coração, será que ele não estaria melhor. Não sei se agi certo em ensinar meus filhos a ser assim, com os outros filhos é igual."

Minha paciente quase no final do atendimento, contou que esteve esses dias no ambulatório, esperava por uma consulta médica e veio a "mocinha da recepção" avisar que a médica esperava por ela na observação (lugar onde ficam os pacientes que precisam tomar medicação por soro ou de atendimento médico por alguma intercorrência). Não entendeu porque tinha de ir lá mas foi... chegando, encontrou a médica que estava sendo medicada por causa de uma enxaqueca e lá, a consulta discorreu assim... a médica no soro e por uns 40 minutos ou mais, a paciente sendo atendida com todo cuidado e carinho de que precisava. A paciente disse assim: "Stella, veja bem... ela não estava passando bem e ficou lá me atendendo, olhou prontuário, meus exames e me ouviu com atenção, podia ter desmarcado sei lá... ela não estava bem, mas ela cuidou tão bem de mim, ela sempre cuida, isso me fez tão bem... sai de lá tão melhor, me senti importante sabe, ela cuidou de mim." 

Conversamos a respeito de sua dúvida no início do atendimento e do seu relato sobre a consulta, sobre a diferença de quando realizamos alguma coisa na vida e agimos com o coração. Ela então entendeu e finalizou seu relato, dizendo que "é tem coisa que dinheiro nenhum compra, quem não vive a vida agindo com o coração, perde muito mais né?" 

Gratidão não tem preço que pague... cada paciente que chega e sai, mais leve... sorrindo ou mesmo chorando a dor que antes estava reprimida ou ignorada, cada pessoa que passa a construir novas possibilidades de existir ou que ressignifica a vida antes de sua morte... cada pessoa que consegue crescer e ser mais e mais autêntica em suas escolhas e realizações... cada pessoa que te olha nos olhos, te abraça apertado e que te diz com os olhos e sorriso... estou bem melhor... a cada uma delas.. muito obrigada!

Desejo mais e mais receber da vida, oportunidades de continuar cuidando e crescendo junto de pessoas assim, que sabem da importância que tem o coração em tudo que a gente acredita e faz.

Beijo grande... nos corações...

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Casa arrumada - Carlos Drummond de Andrade



Aproveito minha hora de almoço para olhar meus e-mails e para compartilhar esta mensagem que recebi da minha mãe. Adorei... não conhecia, me fez pensar em mim e em outras pessoas também, familiares.. amigos.. e pacientes... pessoas que como eu, buscam ou precisam se organizar para dar conta de muitas coisas na vida. Sem esquecer que a viva existe para ser vivida, sem isso.. de que vale tantos esforços? Casa como lugar ou ambiente externo onde habitamos, casa como lugar ou espaço interno que abriga nossos pensamentos, sentimentos, desejos.. sonhos... conflitos... dores... força... que precisa ser organizado de modo que consigamos viver a vida com mais leveza e plenitude.

Abraços fortes e o desejo de um ótimo dia para todos nós...


Casa arrumada é assim:



Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa


entrada de luz.


Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um


cenário de novela.


Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os


móveis, afofando as almofadas...


Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:


Aqui tem vida...


Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras


e os enfeites brincam de trocar de lugar.


Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições


fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.


Sofá sem mancha?


Tapete sem fio puxado?


Mesa sem marca de copo?


Tá na cara que é casa sem festa.


E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.


Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.


Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,


passaporte e vela de aniversário, tudo junto...


Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.


A que está sempre pronta pros amigos, filhos...


Netos, pros vizinhos...


E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca


ou namora a qualquer hora do dia.


Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.


Arrume a sua casa todos os dias...


Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...


E reconhecer nela o seu lugar.


(CASA ARRUMADA - Carlos Drummond de Andrade)






segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Clarita - sobre a doença de Alzheimer



"Clarita" trata-se de um documentário sobre a história de uma mulher que recebe o diagnóstico da Doença de Alzheimer, do adoecimento e enfrentamento, do processo de adaptação e aceitação de seus familiares. Sua história nos permite pensar a respeito da importância de cuidar de quem está tão gravemente enfermo com respeito e orientação; e ainda, sobre as mudanças nas relações de cuidado e afeto, sobre a vida e o (s) sentido (s) para a nossa existência.

Divulguem!!! Quanto mais pessoas conhecerem a Doença de Alzheimer, mais e mais o diagnóstico será descoberto precocemente e mesmo que não seja possível a cura, sabemos que quanto mais cedo se descobre a doença, menos sofrimento vivenciará o paciente e seus familiares.

Abraços fortes...

sábado, 17 de setembro de 2011

Aspectos emocionais na relação entre paciente idoso e cuidador


O título desta postagem foi também título de uma aula que dei para um grupo de familiares cuidadores de pacientes idosos com Doença de Alzheimer (DA) e outras demências. Este grupo em particular está sempre variando em número de participantes, isso porque quem cuida de alguém com DA, vive uma rotina intensa de cuidados e nem sempre consegue participar de atividades "extras", como aquelas que dizem respeito a cuidar de si ou de outras pessoas, além do paciente com DA.

No próximo dia 21 de setembro, se comemora o Dia Mundial da Doença de Alzheimer, isso porque com o crescimento mundial da população idosa, cada vez mais se verificam casos de pessoas com o diagnóstico desta que é a mais conhecida e recorrente demência que atinge pessoas com mais de 60 anos.

A Doença de Alzheimer é uma doença degenerativa e incurável, existem medicações para retardar o avanço progressivo da doença e sofrimento pelos sintomas, para controlar as mudanças ou distúrbios de comportamento e adiar o declínio cognitivo, garantindo melhor qualidade de vida para o idoso e seus familiares.

Quem cuida de um idoso demenciado ou frágil, aquele que por motivo de doença ou pelo progressivo envelhecimento, tornar-se cada vez mais dependente de cuidado, vive um processo intenso de sucessivas mudanças e perdas. Entre elas ocorrem as mudanças nos papéis familiares, muitas vezes quem cuidava é agora quem recebe cuidado ou quem nunca cuidou, agora necessita de alguém que se disponha a cuidar dele ou dela.

Além disso, cuidar de quem tem Doença de Alzheimer, devido aos sintomas e piora progressiva da doença que causa total dependência do outro; e ainda, pelas perdas emocionais na relação entre sujeito paciente e sujeito cuidador, este processo pode favorecer para a sobrecarga física e emocional do familiar cuidador. Por isso, sempre oriento que é importante que o cuidador divida a responsabilidade e o cuidado com outros familiares ou em último caso, com um cuidador profissional.

Quando preparo a aula para o grupo de familiares cuidadores, busco sempre formas diversas de representar esta relação não só para quem recebe o cuidado, mas principalmente para aquele que realiza. Geralmente no decorrer das aulas, vejo as cabecinhas ou comentários de quem SENTE e VIVE esta realidade.

Alguns se emocionam e contam suas experiências e seguimos nesta troca, eu no papel de quem orienta sobre a doença, sobre os cuidados necessários para o paciente e TAMBÉM, sobre a necessidade de cada um desses cuidadores manterem o autocuidado para que permaneçam saudáveis e em condições para cuidar de quem amam.

E eles que me trazem tanta riqueza de conhecimento, adquirido na prática diária da realização deste cuidado, nas tentativas e erros de quem NÃO ESCOLHEU ou NUNCA se imaginou neste papel, mas o aceitou e procura mais e mais condições de realizá-lo com amor e respeito ao doente.

Atendi anos atrás um paciente que apresentava sintomas semelhantes a um quadro de demência, mas veio para a terapia por causa de um quadro depressivo grave. Ele, com seus 80 anos, foi um daqueles pacientes que ao receberem alta, deixam saudades. Trabalhei entre outras coisas, para que ele e esposa buscassem uma avaliação com um médico geriatra, porque eu já desconfiava que podia haver algo de demência em seus sintomas e queixas.

Meses depois, encontrei com eles no corredor do ambulatório, ele me reconheceu e reconhece ainda hoje, mas sempre que me olha, sorri e pergunta da minha família e dos filhos que não tenho. Nas primeiras vezes, a esposa olhava pra mim e fazia disfarçadamente um sinal para me dizer que não ficasse chateada por ele esquecer ou confundir informações sobre mim. Eu sempre lhes sorrio de volta e pergunto se ele está se cuidando, ele diz que sim e ela visivelmente, sobrecarregada pelo cuidado dispensado, sempre me diz que um dia conseguirá ir ao grupo de cuidadores, mas "ainda não dá."

Escrevo esta postagem, para dizer aos cuidadores de pacientes com Doença de Alzheimer e idosos gravemente enfermos ou frágeis, que SE CUIDEM... quem cuida de si, cuida melhor de tudo e todos os que amam. 

Cuidar significa entre muitas coisas, ter Paciência; Atenção; Criatividade; Alegria; Proteção; Respeito; Amor; Carinho; Valorização; Escuta; Ajuda e Generosidade. Como cuidar tão bem de alguém, quando não se tem mais sáude e forças para isso?

 CUIDEM-SE ... alguns perdem até a noção de cuidados básicos consigo mesmo, já não sabem o que é dormir; se alimentar corretamente; tomar um banho gostoso e restaurador. Produzir bem-estar em nossas vidas é garantir que permanecemos vivos, mas com saúde!! Tudo que temos na vida de precioso, quando deixamos de cuidar, se perde. Com a nossa saúde é a mesma coisa, se não cuido de minha saúde física e emocional, perco e nem sempre consigo recuperá-la.

Para dúvidas.. estou à disposição, é só perguntar ou comentar sobre o assunto e falamos mais.

Estou distante faz um tempo do Construindo porque a correria e os compromissos atuais são muitos, mas estou sempre de volta... também me faz muito bem, estar por aqui com quem mais desejar, produzindo pensamentos, contando histórias verdadeiras de força e fé na vida e relações... construindo muitos e novos sentidos.

Beijo no coração e abraços fortes...