sábado, 22 de outubro de 2011

Quando o coração fala mais alto


Depois de um mês e um dia... olha eu aqui, de volta ao Construindo... que saudades!! A correria e o cansaço me vencem todo fim de dia, não quer dizer que outros projetos ou atividades sejam mais importantes, é que realmente não dá pra abraçar o mundo... apesar de que, o que nunca falta é vontade.. de mais e mais trabalhar e trabalhar, fazendo aquilo que tanto amo. Tenho muito amor pela profissão que escolhi... escolhi muito cedo, ainda menina, que seria psicóloga. Sabe quando a gente vê aquela criança dizendo... quando eu crescer eu quero ser... comigo foi assim. Eu sempre desejei cuidar de pessoas e graças ao incentivo de minha família, graças a Deus... posso dizer que me sinto profissionalmente feliz mas ainda não totalmente realizada. Digo isso porque se Deus me permitir, ainda vou fazer meu mestrado.. quero dar aula para pessoas que como eu, escolheram cuidar de pessoas e sabem da importância e seriedade dessa escolha. 

Cada pessoa que atendo, seja no hospital ou no consultório, traz dentro de si muito sofrimento... é gratificante quando pouco a pouco, vejo que aquela pessoa passa a confiar em mim, permitindo que eu lhe ajude a aliviar suas dores, a curar ou cuidar de seu sofrimento, para que volte a ter esperança e força para enfrentar suas dificuldades. Por isso, agradeço a todos os meus pacientes e também aos seus familiares que me permitiram e que se permitem dividir comigo suas histórias, seus medos, suas dores, seus sonhos, suas fraquezas e incertezas, suas limitações e dificuldades, seus erros e a culpa, suas vidas e suas preocupações, suas frustrações... mas também suas vitórias, suas alegrias, os aprendizados e novos caminhos traçados.

Esses dias recebi uma paciente idosa, que começou o atendimento dizendo que precisava encontrar uma resposta para seu conflito... dizia que não tinha certeza se agiu correto na criação dos filhos. Dizia: "Stella, eu não sei.. acho que sou culpada, meus filhos eles são muito coração sabe, são sensíveis e eles não conseguem às vezes uma melhor colocação no trabalho deles porque eles agem muito com o coração. Eles trabalham para empresas que visam ganhar dinheiro e meu filho, o cargo dele exige dele muito trabalho, mas o reconhecimento não é lá essas coisas, vejo ele que também já tem uma certa idade, tendo que trabalhar tanto e estudar ainda, ele sempre estudou e ainda hoje, faz um curso na USP, é uma pessoa tão dedicada e a empresa não valoriza, ele não passa dificuldades, mas para tanto esforço, merecia uma estabilidade financeira, sabe? Já teve oportunidades de ganhar dinheiro de forma desonesta, mas ele não é assim, não que eu lamente.. mas às vezes me pergunto, ele que batalha tanto, se fosse menos coração, será que ele não estaria melhor. Não sei se agi certo em ensinar meus filhos a ser assim, com os outros filhos é igual."

Minha paciente quase no final do atendimento, contou que esteve esses dias no ambulatório, esperava por uma consulta médica e veio a "mocinha da recepção" avisar que a médica esperava por ela na observação (lugar onde ficam os pacientes que precisam tomar medicação por soro ou de atendimento médico por alguma intercorrência). Não entendeu porque tinha de ir lá mas foi... chegando, encontrou a médica que estava sendo medicada por causa de uma enxaqueca e lá, a consulta discorreu assim... a médica no soro e por uns 40 minutos ou mais, a paciente sendo atendida com todo cuidado e carinho de que precisava. A paciente disse assim: "Stella, veja bem... ela não estava passando bem e ficou lá me atendendo, olhou prontuário, meus exames e me ouviu com atenção, podia ter desmarcado sei lá... ela não estava bem, mas ela cuidou tão bem de mim, ela sempre cuida, isso me fez tão bem... sai de lá tão melhor, me senti importante sabe, ela cuidou de mim." 

Conversamos a respeito de sua dúvida no início do atendimento e do seu relato sobre a consulta, sobre a diferença de quando realizamos alguma coisa na vida e agimos com o coração. Ela então entendeu e finalizou seu relato, dizendo que "é tem coisa que dinheiro nenhum compra, quem não vive a vida agindo com o coração, perde muito mais né?" 

Gratidão não tem preço que pague... cada paciente que chega e sai, mais leve... sorrindo ou mesmo chorando a dor que antes estava reprimida ou ignorada, cada pessoa que passa a construir novas possibilidades de existir ou que ressignifica a vida antes de sua morte... cada pessoa que consegue crescer e ser mais e mais autêntica em suas escolhas e realizações... cada pessoa que te olha nos olhos, te abraça apertado e que te diz com os olhos e sorriso... estou bem melhor... a cada uma delas.. muito obrigada!

Desejo mais e mais receber da vida, oportunidades de continuar cuidando e crescendo junto de pessoas assim, que sabem da importância que tem o coração em tudo que a gente acredita e faz.

Beijo grande... nos corações...

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Casa arrumada - Carlos Drummond de Andrade



Aproveito minha hora de almoço para olhar meus e-mails e para compartilhar esta mensagem que recebi da minha mãe. Adorei... não conhecia, me fez pensar em mim e em outras pessoas também, familiares.. amigos.. e pacientes... pessoas que como eu, buscam ou precisam se organizar para dar conta de muitas coisas na vida. Sem esquecer que a viva existe para ser vivida, sem isso.. de que vale tantos esforços? Casa como lugar ou ambiente externo onde habitamos, casa como lugar ou espaço interno que abriga nossos pensamentos, sentimentos, desejos.. sonhos... conflitos... dores... força... que precisa ser organizado de modo que consigamos viver a vida com mais leveza e plenitude.

Abraços fortes e o desejo de um ótimo dia para todos nós...


Casa arrumada é assim:



Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa


entrada de luz.


Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um


cenário de novela.


Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os


móveis, afofando as almofadas...


Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:


Aqui tem vida...


Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras


e os enfeites brincam de trocar de lugar.


Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições


fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.


Sofá sem mancha?


Tapete sem fio puxado?


Mesa sem marca de copo?


Tá na cara que é casa sem festa.


E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.


Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.


Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,


passaporte e vela de aniversário, tudo junto...


Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.


A que está sempre pronta pros amigos, filhos...


Netos, pros vizinhos...


E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca


ou namora a qualquer hora do dia.


Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.


Arrume a sua casa todos os dias...


Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...


E reconhecer nela o seu lugar.


(CASA ARRUMADA - Carlos Drummond de Andrade)






segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Clarita - sobre a doença de Alzheimer



"Clarita" trata-se de um documentário sobre a história de uma mulher que recebe o diagnóstico da Doença de Alzheimer, do adoecimento e enfrentamento, do processo de adaptação e aceitação de seus familiares. Sua história nos permite pensar a respeito da importância de cuidar de quem está tão gravemente enfermo com respeito e orientação; e ainda, sobre as mudanças nas relações de cuidado e afeto, sobre a vida e o (s) sentido (s) para a nossa existência.

Divulguem!!! Quanto mais pessoas conhecerem a Doença de Alzheimer, mais e mais o diagnóstico será descoberto precocemente e mesmo que não seja possível a cura, sabemos que quanto mais cedo se descobre a doença, menos sofrimento vivenciará o paciente e seus familiares.

Abraços fortes...

sábado, 17 de setembro de 2011

Aspectos emocionais na relação entre paciente idoso e cuidador


O título desta postagem foi também título de uma aula que dei para um grupo de familiares cuidadores de pacientes idosos com Doença de Alzheimer (DA) e outras demências. Este grupo em particular está sempre variando em número de participantes, isso porque quem cuida de alguém com DA, vive uma rotina intensa de cuidados e nem sempre consegue participar de atividades "extras", como aquelas que dizem respeito a cuidar de si ou de outras pessoas, além do paciente com DA.

No próximo dia 21 de setembro, se comemora o Dia Mundial da Doença de Alzheimer, isso porque com o crescimento mundial da população idosa, cada vez mais se verificam casos de pessoas com o diagnóstico desta que é a mais conhecida e recorrente demência que atinge pessoas com mais de 60 anos.

A Doença de Alzheimer é uma doença degenerativa e incurável, existem medicações para retardar o avanço progressivo da doença e sofrimento pelos sintomas, para controlar as mudanças ou distúrbios de comportamento e adiar o declínio cognitivo, garantindo melhor qualidade de vida para o idoso e seus familiares.

Quem cuida de um idoso demenciado ou frágil, aquele que por motivo de doença ou pelo progressivo envelhecimento, tornar-se cada vez mais dependente de cuidado, vive um processo intenso de sucessivas mudanças e perdas. Entre elas ocorrem as mudanças nos papéis familiares, muitas vezes quem cuidava é agora quem recebe cuidado ou quem nunca cuidou, agora necessita de alguém que se disponha a cuidar dele ou dela.

Além disso, cuidar de quem tem Doença de Alzheimer, devido aos sintomas e piora progressiva da doença que causa total dependência do outro; e ainda, pelas perdas emocionais na relação entre sujeito paciente e sujeito cuidador, este processo pode favorecer para a sobrecarga física e emocional do familiar cuidador. Por isso, sempre oriento que é importante que o cuidador divida a responsabilidade e o cuidado com outros familiares ou em último caso, com um cuidador profissional.

Quando preparo a aula para o grupo de familiares cuidadores, busco sempre formas diversas de representar esta relação não só para quem recebe o cuidado, mas principalmente para aquele que realiza. Geralmente no decorrer das aulas, vejo as cabecinhas ou comentários de quem SENTE e VIVE esta realidade.

Alguns se emocionam e contam suas experiências e seguimos nesta troca, eu no papel de quem orienta sobre a doença, sobre os cuidados necessários para o paciente e TAMBÉM, sobre a necessidade de cada um desses cuidadores manterem o autocuidado para que permaneçam saudáveis e em condições para cuidar de quem amam.

E eles que me trazem tanta riqueza de conhecimento, adquirido na prática diária da realização deste cuidado, nas tentativas e erros de quem NÃO ESCOLHEU ou NUNCA se imaginou neste papel, mas o aceitou e procura mais e mais condições de realizá-lo com amor e respeito ao doente.

Atendi anos atrás um paciente que apresentava sintomas semelhantes a um quadro de demência, mas veio para a terapia por causa de um quadro depressivo grave. Ele, com seus 80 anos, foi um daqueles pacientes que ao receberem alta, deixam saudades. Trabalhei entre outras coisas, para que ele e esposa buscassem uma avaliação com um médico geriatra, porque eu já desconfiava que podia haver algo de demência em seus sintomas e queixas.

Meses depois, encontrei com eles no corredor do ambulatório, ele me reconheceu e reconhece ainda hoje, mas sempre que me olha, sorri e pergunta da minha família e dos filhos que não tenho. Nas primeiras vezes, a esposa olhava pra mim e fazia disfarçadamente um sinal para me dizer que não ficasse chateada por ele esquecer ou confundir informações sobre mim. Eu sempre lhes sorrio de volta e pergunto se ele está se cuidando, ele diz que sim e ela visivelmente, sobrecarregada pelo cuidado dispensado, sempre me diz que um dia conseguirá ir ao grupo de cuidadores, mas "ainda não dá."

Escrevo esta postagem, para dizer aos cuidadores de pacientes com Doença de Alzheimer e idosos gravemente enfermos ou frágeis, que SE CUIDEM... quem cuida de si, cuida melhor de tudo e todos os que amam. 

Cuidar significa entre muitas coisas, ter Paciência; Atenção; Criatividade; Alegria; Proteção; Respeito; Amor; Carinho; Valorização; Escuta; Ajuda e Generosidade. Como cuidar tão bem de alguém, quando não se tem mais sáude e forças para isso?

 CUIDEM-SE ... alguns perdem até a noção de cuidados básicos consigo mesmo, já não sabem o que é dormir; se alimentar corretamente; tomar um banho gostoso e restaurador. Produzir bem-estar em nossas vidas é garantir que permanecemos vivos, mas com saúde!! Tudo que temos na vida de precioso, quando deixamos de cuidar, se perde. Com a nossa saúde é a mesma coisa, se não cuido de minha saúde física e emocional, perco e nem sempre consigo recuperá-la.

Para dúvidas.. estou à disposição, é só perguntar ou comentar sobre o assunto e falamos mais.

Estou distante faz um tempo do Construindo porque a correria e os compromissos atuais são muitos, mas estou sempre de volta... também me faz muito bem, estar por aqui com quem mais desejar, produzindo pensamentos, contando histórias verdadeiras de força e fé na vida e relações... construindo muitos e novos sentidos.

Beijo no coração e abraços fortes...

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Cuidados Paliativos


Cuidados Paliativos ocorre quando o tratamento deixa de ser curativo pela gravidade da doença e passa a ter como objetivo a qualidade de vida e o aumento do tempo de vida dos sujeitos.

Trabalhar com cuidados paliativos é cuidar de quem vive a dor, estando atento às particularidades de cada envolvido. É atender e acolher essas dificuldades para favorecer assim a desvinculação, para que o paciente vivencie a boa morte e para que o familiar se despeça, dizendo o que antes da iminência de morte, talvez nunca tenha sido permitido.

Trabalhar com cuidados paliativos é respeitar os sujeitos pacientes e os sujeitos familiares que vivenciam o adoecimento e uma situação de vida que não pode ser evitada, vivenciam a aproximação de uma morte anunciada.  Desde o nascimento, vivenciamos diversas perdas, porém não é frequente o diálogo sobre o término ou desapego nas relações de amor e/ou dos vínculos afetivos.
 
A proximidade da morte rompe a falsa segurança de que somos seres inatingíveis.

Desperta profundas reflexões sobre como temos vivido nossas vidas.

Favorece a ressignificação ou  descoberta de novos sentidos para a vida, sentidos que muitas vezes são adiados ou reprimidos.

Os conflitos pessoais promovem sofrimento pelo esgotamento do tempo, tempo para começar, recomeçar ou dar continuidade ao seu bem viver.

A pessoa gravemente enferma e seus familiares vivem um processo de intensas e sucessivas perdas, tais como:

Perda da saúde;

Perda dos planos para o presente e futuro;

Perda dos papéis anteriormente exercidos no grupo familiar e sociedade;

Perda da autonomia, Independência, Identidade;

Perdas financeiras;

Perda no relacionamento com amigos, familiares, amores;

Perdas pela alteração da imagem corporal, físicas e funcionais;

Entre outras perdas...

As doenças emocionais e físicas chegam para o ser em todas as idades ou fases da vida, para nos relembrar da importância de preservarmos nossa saúde, para que então o adoecimento não chegue e permaneça, como aquela visita indesejada, que chega sem avisar e que demora ou não quer mais ir embora.
 
Hoje ouvi um paciente dizendo que a doença não o impediu de viver; pelo contrário, foi depois de adoecer que aprendeu a dar valor ao que realmente importa, que começou a viver sem deixar que as pendências se acumulassem, disse assim... "o hoje me pertence, o amanhã eu não sei, mas no que depender de mim, prometo me dedicar intensamente e vou viver tudo que tiver direito, tudo que for possível e vou fazer hoje, amanhã eu já não sei".
 
 
Para finalizar o texto, deixo uma reflexão e abraços fortes.. daqueles apertados, carregado de afeto. Desejo que VOCÊ que está em tratamento paliativo ou que é familiar de alguém que vivencie esta realidade, que VOCÊS vivam plenamente e se dediquem a melhorar o que ainda não lhe faz bem. Esteja doente ou não, podemos cuidar e produzir felicidade em nossas vidas... ao invés de dor... desejo a todos..  o melhor!!
 
 
“No entardecer de nossa vida queremos esperançosamente ter a oportunidade de recordar e dizer – Valeu a pena, realmente vivi”

(Elisabeth Kübler-Ross)

 
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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Fim do dia... compartilhando pensamentos

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia. E, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado para sempre, à margem de nós mesmos."
(Fernando Pessoa)

"Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas."
 (Nietzsche)

"A vida só pode ser compreendida, olhando-se para trás; mas só pode ser vivida, olhando-se para frente."
(Soren Kierkegaard)

"O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando,
no fim terás o que colher."
(Cora Coralina)




Abraços fortes...

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Sujeito Perfeccionista


Uma das grandes causas para o adoecimento físico e emocional surge a partir da necessidade do sujeito de se relacionar consigo mesmo e com tudo o que realiza através de atitudes e pensamentos perfeccionistas. Quem é perfeccionista muitas vezes se orgulha disso; porém, é importante estar atento ao que ESTÁ por detrás deste comportamento.

As causas podem ser variadas, como por exemplo: baixa auto-estima, medo e insegurança; ou até mesmo, ansiedade e autocobranças além do que é natural e saudável. O perfeccionista não aceita realizar algo que não atenda às expectativas desse seu ideal de perfeição.

As raízes deste modo de existir podem estar relacionadas à experiências ameçadoras, de grande exigência ou desvalorização, vividas na infância e marcadas no subconsciente. Funciona como uma ordem que diz: "tenho que atender às expectativas sempre", ou "não posso decepcionar ou desagradar".

Algumas experiências no início da vida, podem despertar sentimentos como insegurança, inadequação e medo de abandono nas relações de afeto, contribuindo para que o sujeito não se permita errar, sofrendo diante das frustrações e ameaças de perda. Errar significa desagradar e isso pode levar a perda, a desvalorização ou desaprovação do outro.

Dessa maneira, o comportamento perfeccionista lhe garante a segurança e sobrevivência através de um modo de existir que ameniza o medo constante de não ser aceito. Isso claro, denota uma auto-estima bastante rebaixada e frágeis recursos emocionais de enfrentamento. O sujeito perfeccionista por acreditar que não é aceito tal como é, também demonstra dificuldade de auto-aceitação.

Se relaciona consigo mesmo através de pensamentos, sentimentos e comportamentos que refletem constante cobrança e punição. Agradar a si mesmo significa ver no outro a aprovação para este seu modo de ser. Neste sentido, o perfeccionismo cria relações de grande dependência emocional. O sujeito precisa constantemente da aprovação ou aceitação do outro para se realizar temporariamente.

Na realidade, o perfeccionista está frequentemente insatisfeito com o que faz, buscando sempre algo que se aproxime da perfeição. O outro é um espelho emocional de suas crenças e sentimentos negativos a respeito de si mesmo. Gosta de ser desafiado, o que alimenta seu mecanismo interno de auto-cobrança.

O maior desafio para o sujeito perfeccionista é pensar e sentir que ele pode ser quem ele é, que tem o direito de errar como qualquer outra pessoa. O perfeccionista não admite errar e também não aceita que os outros errem. Erro remete a fracasso e desencadeia outros pensamentos negativos, tais como: "não sou bom o suficiente, sou um nada, minha vida nunca será como eu desejo, não mereço ser feliz".

Lembre-se: tudo em excesso faz mal, ser perfeccionista pode deixar de ser uma qualidade para se tornar um comportamento obsessivo, uma busca por um ideal de perfeição que é ilusório e que faz suas relações, seu corpo e seu emocional adoecerem. A necessidade de realizar com perfeição tudo que faz, exige mais tempo do que normalmente se gastaria. O sujeito se torna escravo do perfeccionismo.

O fracasso desperta dor emocional, sentimentos como tristeza e culpa, pode gerar comportamento ou reações agressivas. O desgaste físico e mental é grande, podendo levar ao desenvolvimento de doenças psiquiátricas como depressão, transtornos ansiosos e ainda, transtorno obsessivo compulsivo (TOC), entre outros.

Cuidar de si mesmo buscando ajuda psicológica, não significa que você deixará de ser competente naquilo que faz ou que não receberá mais o reconhecimento dos outros pelo seu esforço. Você apenas descobrirá que pode viver a vida de uma forma mais leve, sem tanta cobrança interna e externa, reconhecendo suas qualidades, sem adoecer gravemente.  Descobrindo que pode ser competente e humano ao mesmo tempo. A psicoterapia pode lhe proporcionar uma vida mais plena e sem tanto sofrimento.

Abraços fortes...


terça-feira, 16 de agosto de 2011

Vida e Morte



"Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. (Rubem Alves)


Hoje se vive, amanhã se morre. Algumas doenças simplesmente não mandam aviso, quando descobertas podem ser de difícil tratamento ou ainda, pode o tratamento não ter como objetivo a cura. Dia a dia vivencio e cuido de pessoas que estão doentes ou que ficam doentes de repente. Não é raro ouvir que a pessoa que se descobriu doente, nunca teve nada, nunca precisou se cuidar, nunca nem internou na vida.

Passou o tempo em que se ouvia que doente de verdade, daqueles que adoecem gravemente são os que não vão ao médico, os que não se cuidam. Ou aqueles que já são idosos, aqueles que já tem sim uma coleção de doenças e tomam uma lista quase infinita de medicações.

Na realidade, adoece quem vai ao médico e quem não vai, adoece quem se cuida e principalmente quem não se cuida emocionalmente. Mas claro que nem sempre é por descuido que a doença chega e desestabiliza a todos, pessoa doente e seus familiares, às vezes até o médico cuidadoso e compromissado, que sempre acompanhou seu paciente, é pego de surpresa e sofre pelo inevitável.

As perguntas diante de situações assim, que envolve vida e morte são muitas. Poucas serão respondidas, mas ainda assim o significado para tanto sofrimento é sempre questionado por todos os envolvidos. Hoje, cheguei ao hospital onde trabalho para ir a uma reunião de equipe e conheci uma mãezinha que ainda perdida entre a dura realidade da descoberta de um câncer em sua filha de 6 aninhos, mantinha a esperança de que tudo ficaria bem.

Suas palavras diziam que ela estava agora sendo cuidada pelos médicos, mas seus olhos e o tremor de suas mãos, seu rosto ruborizado e as lágrimas contidas nos olhos, diziam do medo e da dor de uma possível perda ou separação.
A vida é sentida pelo instante do aqui-e-agora, nenhuma certeza podemos ter sobre o tempo de vida de alguém que está doente e sem possibilidade de cura. Da mesma forma, nenhuma certeza podemos ter sobre quanto tempo ainda teremos para realizar tudo que adiamos, tudo que nos é importante, tudo que ensaiamos e que pouco colocamos em prática.

Viva e se deixe viver, realize e esteja mais perto do que lhe faz sentido, permita que sua vida aconteça. Desate as amarras que te impedem de viver a vida neste instante. Cada dia é único em nossas vidas, este dia de hoje, amanhã já terá passado. Nenhum dia é igual ao outro, assim como você que está tão longe de ser quem você realmente necessita e deseja ser, pode mudar o que lhe causa tanto mal para dar início a uma vida plena... com sentidos que lhe permitem ser e existir como quem vive o melhor e o mais belo momento de sua vida!! Esse momento é hoje... amanhã? Já não sabemos mais...

Vida e morte ensinam ao ser humano como é importante dar valor ao que realmente importa e como é necessário se desfazer do que não agrega, do que não deveria ter tanto valor.

Beijo no coração e muita esperança para todos...




quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Um dia sem dor


Atendo diariamente pessoas que por inúmeras razões, desejam o fim de suas dores físicas e emocionais. Ouvi de uma paciente que está gravemente enferma e já é idosa, que na época da sua mocidade, não sentia nada, nunca ficava doente.Ouvi de outra paciente, que ela nunca se preocupou em cuidar de si mesma porque nunca precisou.

Esta semana muitos de meus pacientes entraram em contato com experiências de dor emocional, daquelas que não passam rapidamente, mesmo com medicação e cuidado, daquelas dores que marcam a alma para sempre.

As dores podem paralizar a vida de uma pessoa temporariamente ou por muitos e muitos anos. Há dores que tiram a força física e emocional, que fazem com que nada mais tenha sentido, que provocam medo, angústia, insegurança, tristeza e depressão.

Há dores que ocupam o espaço de tudo em sua vida, que não lhe permite mais trabalhar, estudar, ter convívio social, estar junto e cuidar de sua família, de ter alegrias e cuidar de você mesmo. Que não lhe permite viver, até que você procure ajuda para cuidar ou curar essa dor.

Seja por uma dor física ou emocional, o medo de sofrer novamente, pode te impedir de viver experiências semelhantes as anteriores, que lhe causaram tanta dor. Um dia sem dor... Só quem vive e sente as dores que adoecem corpo e mente, sabe como pode ser precioso um dia sem dor.

Valorize o que se tem de melhor na vida. Cuide da sua mente e de seu corpo. Cuide de seus pensamentos e sentimentos. Não adie o cuidado com suas dores. Não adie o tempo de que necessita para se dedicar a você mesmo.

Algumas perdas são inevitáveis e/ou irreparáveis. Cuide de você para que essas perdas não consumam seus dias e noites, para que não levem de você, tudo mais que também lhe é bastante precioso.


Abraços fortes...


Agradeço a todos pelos acessos que ultrapassaram 14.000 desde o início do Construindo. Mesmo já  não escrevendo com tanta frequência como gostaria, me sinto feliz porque junto com vocês, dia a dia este espaço cresce e adquire mais e mais sentidos. Obrigada!!


segunda-feira, 8 de agosto de 2011






Venha, meu coração esta com pressa

Quando a esperança está dispersa

Só a verdade me liberta

Chega de maldade e ilusão

Venha, o amor tem sempre a porta aberta

E vem chegando a primavera

Nosso futuro recomeça:

Venha que o que vem é perfeição...


(Renato Russo)